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João Roque Dias, Thursday, July 1, 2010 at 8:07pm

O AO é baseado em postulados (ex.: facilita a aprendizagem das crianças) e em mentiras de Estado (ex.: necessário para expandir o português no Mundo).

Mas, o próprio texto do AO está cheio de mentiras, de meias-verdades e de histórias mal contadas.

Vamos ver uma:

Na Nota Explicativa do AO pode ler-se:

«A existência de duas ortografias oficiais da língua portuguesa, a lusitana e a brasileira, tem sido considerada [por quem?] como largamente prejudicial [quem disse e como se mede?] para a unidade intercontinental do português e para o seu prestígio no Mundo. Tal situação remonta, como é sabido, a 1911, ano em que foi adoptada em Portugal a primeira grande reforma ortográfica, mas que não foi extensiva ao Brasil».

Por outras palavras: Portugal, o mau-da-fita da história da ortografia, como Malaca Casteleiro não se cansa de propalar!

Facto: É verdade que a Reforma Ortográfica realizada em Portugal em 1911 foi feita sem consulta prévia ao Brasil. Nem tinha que ser!

Só que:

O Brasil aderiu à Reforma Ortográfica portuguesa em 1915, tendo-a renegado em 1919!

Maurício Silva da Universidade de São Paulo explica: «Curiosamente, a despeito das inúmeras críticas que a reforma portuguesa recebera no Brasil, sua aceitação acabou sendo até maior do que aquela anteriormente realizada pelos acadêmicos brasileiros, pelo menos nos primeiros anos subseqüentes à mesma: em 1915, por exemplo, a própria Academia Brasileira de Letras acabaria aceitando um parecer de Silva Ramos (julho) que tornava oficial o sistema ortográfico lusitano, eliminando todas as divergências ortográficas entre Brasil e Portugal (novembro), apesar de que quatro anos depois (1919), a mesma academia voltaria atrás, renegando a proposta de Silva Ramos e abolindo a resolução de 1915. O amor-próprio e o sentimento nacional brasileiros parecem ter, no final das contas, prevalecido».

Ainda na Nota Explicativa do AO pode ler-se:

[...] o qual conduziu à chamada Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945. Mais uma vez, porém, este Acordo não produziu os almejados efeitos, já que ele foi adoptado em Portugal, mas não no Brasil.

Convinha que os autores do acordo tivessem dado uma breve explicação para a não adopção do AO no Brasil. A história até se contava em poucas palavras:

Facto: A 10 de Agosto de 1945, o Brasil assinou com Portugal a "Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945". Dez anos depois, o Brasil deu o dito por não dito e renegou, mais uma vez, o que tinha assinado.

Maurício Silva dá-nos os pormenores desta saga brasileira contra o AO: «Permaneceu, portanto, uma situação de divergência entre as duas nações signatárias do acordo, já que o mesmo foi, num primeiro momento, adotado por Portugal (Decreto 35.228, de 08.12.1945) e pelo Brasil (Decreto-lei 8.286, de 05.12.1945), mas posteriormente rejeitado por este (Decreto-lei 2.623, de 21.10.1955)».

Na Nota Explicativa ficou ainda registado esta afirmação extraordinária:

«Também o Acordo de 1945 propunha uma unificação ortográfica absoluta que rondava os 100% do vocabulário geral da língua. Mas tal unificação assentava em dois princípios que se revelaram inaceitáveis para os brasileiros:

a) Conservação das chamadas consoantes mudas ou não articuladas, o que correspondia a uma verdadeira restauração destas consoantes no Brasil, uma vez que elas tinham há muito sido abolidas;

[...]

Conclui-se assim que, para os brasileiros, uma das principais razões para não terem aceite o AO de 1945, foi a restauração de consoantes que há muito tinha sido abolidas! Apesar de, com esse acordo, a unificação ortográfica (essa quimera saloia dos acordistas) atingir os 100%...

Ora, uma (apenas uma...) das razões por que o AO não deve ser aceite é a abolição das consoantes mudas (com valor fonético em português europeu), uma vez que elas nunca foram abolidas do português europeu.

Ou, apenas com umas simples contas de deve e haver, pode-se tirar, mas não se pode acrescentar?